sexta-feira, 25 de maio de 2007


No Ceará planta-se no sonho e colhe-se na esperança


o tempo




ora se o minuto
pode conter
a eternidade
mais eterno
é o beijo
por muitos
e muitos séculos
no corpo que não se ama
por não haver
tempo na história.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Barros Pinho definindo o municipalista Américo Barreira:

"Era de luz seu pensamento e de fogo a sua palavra."

Referência de Américo Barreira

"Professor e Deputado Estadual Barros Pinho, companheiro das agruras da prisão em 1964".


“ O homem precisa de lucidez para garantir a fantasia do sonho do poeta. Ninguém é poeta sem o sonho e sem o mistério”.
Barros Pinho


— “Carta do Pássaro” traz poemas autobiográficos?

Barros Pinho - Toda a literatura traz a marca da vida do autor, sendo um pouco autobiográfica. “A Carta do Pássaro” é a realidade e a fantasia de minhas vivências na infância, no engenho do meu avô à beira do rio Parnaíba. Rio que leva e lava a minha solidão.

— Parece-me que o senhor é romântico e também religioso. Estes dois vértices são constantes na sua poesia?Barros Pinho - Sou romântico pelo avesso. Os pés no chão é a vida, a realidade. Não se pode fugir da vida, da realidade. O dedo no céu é o sonho, o encanto, a aventura de viver. O sublime presidindo o destino do poeta.

— O senhor passou parte da infância na ribeira do Parnaíba, engenho do seu avô. Que lembranças mais fortes o senhor trouxe para “Carta do Pássaro”?

Barros Pinho - A “Carta do Pássaro” é marcada pelo azul, pelo vermelho e pela terra. O rio Parnaíba, a infância, o cordel, o engenho da cana de açúcar, as chapadas, as matas do Guabiraba e das morenas cheirando a leite. A mulher e o rio estão dentro do texto como se estivessem saindo da minha alma. Completam-se no ritmo e na palavra. Não há limites entre o sonho, fantasia e realidade. Somente o rio que leva e lava a minha solidão.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

O SALMO DOS CAMINHOS


(poema inédito para o "Livro dos Rios/
Conversão das Águas)



nos meus pés carrego muitos caminhos
o dos ventos no castigo das pedras
nos meus ouvidos toca harpa de asas
borboletas na estação das chuvas
nas mãos aspejo a súplica do inverno
riachos arrastam folhas na minha cabeça aflita
os rios contornam a guerra
na paz úmida
da palavra semântica
da espera onde arrecado
volumes de sombras
tecendo abismos no mistério
no justo o triste consome a traição dos ímpios
no perdão sálmico das árvores ao entregar-se ao Sol
vive-se a plenitude na estranha indiferença da inveja
ao inimigos do sonho basta o tormento da insônia
aos peixes na água rasa a solicitude dos santos
nos mortos os pássaros acendem o lumiar da aurora

quarta-feira, 16 de maio de 2007

TERRA DAS ÁGUAS



terra molhada pelo parnaíba
terra de serrotes ondulados
de longes planícies preguiçosas
que se abrem para o encontro
do conquistador Jorge velho
com o nativo vaqueiro feito na terra
passo do gado nas paragens do sem-fim

terra rude no desejo quase obsessão
do cansado garimpeiro de encontrar
as pedras que não perdeu nas águas
do rio que não conhecia

terra de imensos canaviais
verde verde pássaro da esperança
de longos bananais perdidos nos aluviões
onde meus avós colhem arroz ao sol da manhã
no amor bem próximo da saudade

terra de onça pintada espreitadeira
de paca tatu cotia veado na aventura do caçador
das morenas cheirando a leite no botão dos peitos
nos sambas intermináveis dentro do luar

terra das águas barrentas do parnaíba
teu homem tem na natureza o destino das canoas
sobe e desce o rio a remar a remar até nunca parar
só as estrelas nos atalhos das veredas do céu

quinta-feira, 10 de maio de 2007

CRÍTICA ao livro "CARTA DO PÁSSARO"
POESIA E TRANSCENDÊNCIA


Pedro Paulo Montenegro



A leitura de Carta do Pássaro, de Barros Pinho, desde o primeiro momento, nos obriga a uma séria reflexão sobre a natureza e o valor da Poesia.

Acode-nos de logo a assertiva de Heidgger comentando Hölderlin: “A Poesia é a fundação do ser pela palavra.” O escritor tem que evocar no leitor, imagens e sentimentos e a poesia se centra na associação de sons, imagens e idéias.

Se todos os homens não são poetas, têm, pelo menos, atitudes poéticas de expectativas ante poemas lidos ou ouvidos e, na vida diária, criam associações mais ou menos evidentes, ou à base de sons repetidos ou de alguma cadência rítmica. Outras vezes relacionam imagens mais virtuosas ou mais perversas. Em todos os casos trabalham a linguagem, matéria prima da literatura em geral e da poesia em particular.

Cada verso que o poeta escreve aguça a imaginação emotiva e o leva a novas descobertas que, por sua vez, a outras conduz. São as palavras mesmas do poema que operando sobre o autor, originam a cadeia expressiva.

Como afirma Carlos Bousoño, em sua Teoria de la Expresión Poética, “Poesia é percepção de emoções, evocação serena de impressões e sensações, isto é, uma contemplação capaz de produzir sentimentos estéticos de prazer e alegria”. E insiste: “há uma infinita distância entre contemplar e viver, entre poesia e realidade, entre linguagem e realidade". E mais : “O que se comunica não é um conteúdo anímico real, mas imaginário”.

Assim chega à sua definição: “poesia é a comunicação de um conteúdo anímico, em seu tríplice aspecto conceitual, sensorial e afetivo ou volitivo”.

Mas trata logo de esclarecer Bousoño: “A comunicação do autor é imaginária, mas a do poema é real, o que vale dizer que um personagem fictício nos transmite a representação que no poema está depositada.”

A angústia, a paisagem, as coisas e, eventualmente o homem e o mundo existem em função de serem as raízes da produção poética de Barros Pinho. Sua poesia se enquadra, pelo lirismo e técnica, na poética moderna. Seu lirismo é sempre participante sem envolvimento político-ideológico, pairando no universal humano.

Decorrência dessa natureza lírica, nesta Carta do Pássaro, é a perfeita contextura entre significante e significado na formação da palavra poeticamente exata, na construção de beleza da linguagem, bela por essência porque confessionalmente fruto de um temperamento e uma visão-do-mundo que são estilo.

Exatamente isso. Os poetas se apoiam numa linguagem mais precisa e radical do que a fala, uma linguagem literária que vem a ser o estilo como visão-do-mundo. Aí surgem imagens, cores, rítmos, visões que se concretizam em poemas.

O poeta é um mago e a poesia é um tato espiritual para as coisas transcendentes, presentes nas coisas triviais que todo mundo vê, mas só em sua trivialidade. Isso porque habituados a se moverem em regiões misteriosas, obscuras, submarinas e subterrâneas, os poetas guardam o passo leve, o gesto fino, o discernimento delicado, que lhes proporcionam evitar deslizes e quedas que políticos, pensadores e até filósofos não conseguem evitar. Em muitas coisas os poetas – os legítimos – vêem mais fundo que os reformadores sociais e os psicólogos construtores de sistemas. Entre elas, o amor, a angústia, o desespero, a saudade, as lágrimas...
Em Carta do Pássaro percebemos nítidos alguns temas dominantes e recorrentes como amor e paixão, tempo e solidão, recordação e saudade, natureza e sexualidade, mística e mistério. Sobre todas elas perpassam forte sentimento de amor e verdadeiro encantamento com suas terras piauienses e seu grande Parnaíba. Amor e encantamento transformados em mística e mistério, por conseguinte numa religião da terra e da natureza.

As tradicionais figuras da Retórica tradicional: de supressão, de repetição, de concordância e colocação, as próprias figuras de pensamento, como prosopopéia, hipérbole, antítese e comparação, embora ocasionalmente encontradas nestes poemas de Barros Pinho, não são suficientes para uma análise mais minunciosa e percuciente da sua construção. Temos que recorrer a figuras daquilo que Carlos Bousoño chama “Irracionalidade da Poesia Contemporânea”: Sinestesia, Imagens Visionárias, Visão, Símbolo, Superposição (temporal, espacial, situacional, significacioonal), para sentirmos toda a força e eficácia de sua mensagem.
Dentro ainda da nota de mística, mistério e religião já aludida, está a influência da leitura bíblica de salmos e parábolas evangélicas, levando-nos tudo a uma conclusão valorativa: - a grande força poética de Barros Pinho é proveniente de sua linguagem, matéria prima, é claro, de toda arte verbal, mas quando trabalhada à exaustão pelo artista, como é o seu caso, tem a magia da transformação, da sugerência e da atração.